De outubro de 2008 a abril de 2009, o pesquisador Alberto Casado recebeu uma série de gráficos e tabelas semanais que resumiam o andamento das obras de vedação do edif ício Aroeira, residencial de nove pavimentos localizado no bairro do Poço, no Recife. Em seu laboratório na Universidade de Pernambuco, onde pesquisa novas tecnologias para a construção civil, Casado compilava três índices: a perda de blocos de concreto, de argamassa e o nível de produtividade da mão de obra.
A atividade de coleta e análise de dados pode parecer simples, mas foi apenas a etapa final de um trabalho iniciado há 30 meses e que mobilizou dezenas de colaboradores de diferentes segmentos da sociedade.
O edifício Aroeira é um dos cinco blocos do Sítio Donino, condomínio-clube de 7 mil m2 numa das áreas urbanas mais arborizadas da capital pernambucana. Suas obras de vedação foram acompanhadas de perto pela Comunidade da Construção do Recife, grupo coordenado pela ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), que reúne construtoras, fornecedores e pesquisadores para incentivar práticas construtivas racionais nos sistemas à base de concreto.
Com o monitoramento da comunidade, batizado de programa Obras Monitoradas, a execução das paredes do Aroeira alcançou índices recordes de racionalização. O desperdício de blocos foi de apenas 2%, contra média nacional de 13%. A economia de argamassa foi ainda maior, com perda de 10,3%, em média, comparada a índices que oscilam de 26% a 205% de desperdício. A produtividade ficou dentro da média brasileira, com índice de 0,84 homem x hora por metro quadrado. Para Alberto Casado, coordenador do Obras Monitoradas, três fatores influenciaram os altos índices de racionalização: a elaboração de um projeto de alvenaria detalhado e seguido à risca, o treinamento da equipe antes e durante as obras e o uso de blocos pré-moldados de concreto, material que por sua regularidade dimensional ajuda a reduzir desperdícios.
“A alvenaria de vedação com blocos pré-moldados é mais cara. No entanto, com o planejamento e controle de todas as fases da obra é possível diminuir desperdícios e começar a ter vantagem de custo na obra como um todo”, afirma Casado.
PROJETO-PILOTO
A escolha do edifício Aroeira como projeto-piloto da Comunidade da Construção aconteceu no final de 2007, quando a Regional Norte/Nordeste da ABCP, com sede no Recife, realizou um curso para a divulgação do programa Obras Monitoradas. A construtora Conic & Souza Filho ficou interessada e se inscreveu.
“A condição foi que começássemos pelo edif ício Aroeira, com vedação em blocos de concreto, e em seguida construíssemos o segundo prédio do condomínio com vedação em blocos cerâmicos. Com isso, poderíamos comparar os dois sistemas e descobrir qual era o mais viável, não apenas economicamente, mas também em relação à sustentabilidade”, relembra Lucian Fragoso, diretor comercial da Conic.
A partir daí, uma série de reuniões técnicas entre a construtora e a ABCP definiram a tecnologia adequada e os fornecedores de blocos e argamassa. Uma das etapas mais decisivas veio logo em seguida: a elaboração de um projeto de alvenaria integrado aos demais sistemas da obra. “O projeto foi o mais detalhado possível, pois não queríamos que as decisões fossem tomadas no canteiro de obra. Criamos planilhas de execução de paredes prevendo o avanço da obra semana a semana”, recorda Fragoso.
A execução da alvenaria teve início em outubro de 2008. Antes disso, os funcionários receberam treinamento específico para seguir fielmente os projetos. Com as medições semanais da comunidade da construção, o resultado de dez meses de planejamento começou a aparecer e o Aroeira a chamar a atenção de construtoras locais e de outros estados.
“Implantar esse sistema construtivo no Recife foi um marco, já que ele é relativamente novo no Nordeste”, afirma Emanuelle Pontes, representante da ABCP de Pernambuco e Paraíba e uma das responsáveis pelo programa Obras Monitoradas. “As pessoas costumam dizer que a alvenaria cerâmica é mais barata, mas mostramos na prática que a alvenaria de concreto é competitiva”.
Para Pontes, o monitoramento do Aroeira trouxe duas contribuições principais: a primeira, a definição de uma metodologia que permite medir com segurança o desempenho do sistema de alvenaria utilizado no edif ício. A segunda, o desenvolvimento de uma tecnologia própria de redução de desperdícios, que pode ser replicada em todo o país.
A experiência do Obras Acompanhadas com o edif ício Aroeira também virou tema de estudo científico. Alberto Casado sintetizou as etapas do programa e os resultados e percorre o Brasil apresentando o projeto em seminários, palestras e cursos. A Regional N/NE daABCP, através do site da Comunidade da Construção e de consultorias presenciais, também oferece o know-how adquirido com o projeto para as construtoras interessadas.
CUSTOS MENORES, MENOS DESPERDÍCIO
Fragoso calcula que o acompanhamento da comunidade da construção resultou em uma economia global de 1% da obra do edif ício Aroeira, ou cerca de 130 mil reais. “Uma obra que utiliza cerâmica para a vedação custa 8% ou 10% menos que uma obra com blocos de concreto. No edif ício Aroeira, conseguimos uma economia de 5% a 8% em relação aos projetos em que usamos vedação cerâmica”.
Para Fragoso, a esse resultado econômico soma-se o benef ício da construção sustentável, pois há um descarte residual muito maior com a cerâmica. “Em nossos projetos, perdemos cerca de 10% dos blocos cerâmicos. Já com sistemas à base de cimento atingimos um índice de apenas 2,7% de perda”, comemora Fragoso.
A COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO
Emanuelle Pontes, representante da ABCP de Pernambuco e Paraíba e uma das responsáveis pelo programa Obras Monitoradas, explica o que é e como funciona a Comunidade da Construção.
O que é a Comunidade da Construção?
É um movimento nacional criado em 2002 pela indústria do cimento. Nossa meta é elevar o desempenho e melhorar a competitividade dos sistemas construtivos à base de cimento, que integram a maior parte dos edifícios construídos no Brasil.
Como funciona o grupo?
Atuamos com a participação de todos os agentes da cadeia da construção civil: arquitetos, calculistas estruturais, projetistas, acadêmicos, fabricantes e construtoras. Nossa estratégia é integrar e aglutinar esses setores para difundir as melhores práticas construtivas.
Qual a contribuição da comunidade para racionalizar a construção civil?
No caso específico do programa Obras Monitoradas isso fica bem claro. O acompanhamento do edifício Aroeira ajudou a atingir índices excepcionais de perda de blocos e argamassa. A redução de desperdícios e o treinamento da mão de obra são grandes contribuições deste programa, cujos resultados podem ser replicados em todo o Brasil. Além disso, temos um site (www.comunidadedaconstrucao.com.br) em que disponibilizamos manuais com normas técnicas e guias com as melhores práticas construtivas.
Para conhecer mais: www.comunidadedaconstrucao.com.br