Construído à margem do rio Pinheiros,em uma das vias mais movimentadas da Zona Sul de São Paulo, o shopping Cidade Jardim nasceu com a proposta de ser um dos centros de consumo mais luxuosos da capital paulista. No entanto, quem cruza apressado a fachada principal do edifício de 99,5 mil m2 não imagina que ele abriga disputadas grifes nacionais e estrangeiras, algumas exclusivas do espaço. É que o prédio, de arquitetura neoclássica discreta e acabamento em tons neutros, surge por trás de uma longa área jardinada, criando um clima de intimidade –ou exclusividade– para os mais de 30 mil clientes que por lá passam diariamente.
O contraste é perceptível no interior do edifício. Em vez de reforçar as distâncias entre espaço fechado e espaço aberto, os arquitetos Julio Neves, Pablo Slemenson e Arthur Mattos Casas (design de interiores) se esforçaram para que o Cidade Jardim reproduzisse o estilo de elegantes ruas de compras, ao estilo da paulistana Oscar Freire. Tudo isso, claro, deixando de lado a agitação caótica das metrópoles e as paredes cinza de concreto, substituídas pela organização original das vias internas de circulação e pelo predomínio do verde.
A mistura de cidade e jardim mostra que o nome do empreendimento não é apenas homenagem ao bairro onde foi construído, mas o princípio que orientou o projeto. A característica marcante do interior são as duas dezenas de árvores nativas –reaproveitadas do próprio terreno da construção– plantadas em um canteiro central instalado no edifício. Tipuanas, palmeiras imperiais e sibipirunas de quase 18 metros de altura, cujos galhos são ornamentados com orquídeas, proporcionam um ambiente de parque tropical e quebram a monotonia do espaço retangular repetitivo, característica da maioria dos shoppings.
Concebida pela arquiteta Maria João D´Orey, a proposta paisagística do Cidade Jardim foi além da “praça” central. Todos os corredores internos são abertos, fazendo com que as 180 lojas do empreendimento tenham sua fachada voltada para a vegetação. Os andares possuem canteiros laterais com plantas que formam uma cascata verde nos vãos internos. “Fizemos um trabalho com bancos e vasos mais baixos que acompanha todos os corredores. É como se você estivesse olhando uma mata” , diz Maria.
Complementa a proposta de Maria João um jardim suspenso de 2 mil m2 no terceiro pavimento do shopping. Nele, os freqüentadores encontram um espaço de passeio e descanso emoldurado pela vista panorâmica de São Paulo, e cercado por jabuticabeiras e um extenso jardim. “Nosso objetivo foi oferecer uma área verde, que fizesse um contraponto com o concreto tão presente na cidade” , diz a paisagista.
A imersão da natureza fica ainda mais evidente com o teto vazado, formando uma grande abertura central que permite à luz solar invadir as áreas de circulação do ambiente interno. A iluminação e a ventilação naturais proporcionam economia energética considerável, além de aumentar o conforto e de se adequar ao conceito proposto pelos arquitetos, que tentaram reproduzir a experiência de um passeio ao ar livre aos frequentadores.
Os materiais selecionados para o interior também destacam o conceito de rua pública. Em vez do mármore, comum em centros de compras luxuosos, Mattos Casas preferiu pisos em fulget, um revestimento de granito lavado cuja textura remete às calçadas das cidades. O despojamento também levou à adoção de acabamentos em madeira, material presente nas grades de proteção, corrimãos e ventiladores de teto. A intenção, explica Casas, foi criar um clima ao mesmo tempo informal e elegante. “Minha inspiração foi o conceito de calçada pública. O importante é trazer o paulistano para uma linguagem de rua que ele perdeu com o tempo. Tentei suprimir a maior quantidade de detalhes para deixar com que o paisagismo e a arquitetura das lojas fossem o mais importante.”
RACIONALIDADE NA CONSTRUÇÃO
O sistema adotado para a construção do Cidade Jardim priorizou a racionalidade industrial dos pré-moldados de concreto. A empresa responsável pelo projeto de engenharia e pela construção foi a JHSF, que tem no portfólio a ampliação ou implantação de ao menos seis shoppings em três estados do Brasil.
O gerente de engenharia da construtora e incorporadora, Júlio Saez, diz que a adoção da estrutura pré-moldada de concreto aumentou a velocidade da obra, concluída em 24 meses desde a escavação até a inauguração das lojas. Além disso, o sistema trouxe economia de recursos, já que reduziu consideravelmente os desperdícios em obra.
Os principais componentes pré-fabricados usados na estrutura foram lajes alveolares, vigas e pilares –instalados por meio de gruas sobre trilhos. Segundo Saez, outra vantagem do sistema é a qualidade da mão de obra e do material disponibilizado pelas indústrias.
Por outro lado, houve dificuldades para encontrar um número suficiente de fornecedores dispostos a cumprir os prazos da construtora. Um dos requisitos da JHSF para o Cidade Jardim foi o desenvolvimento de componentes personalizados para os mais de 11 mil m3 de pré-moldados da estrutura. “Infelizmente, poucas empresas estão aptas a enfrentar esse desafio” , afirma Saez.
FICHA TÉCNICA
Incorporadora: JHSF
Construção: JHSF
Projeto de arquitetura: Arquitetura Júlio Neves, Pablo Slemenson Arquitetura
Projeto de arquitetura de interiores: Arthur Mattos Casas Arquitetura Design
Paisagismo: D’orey Brasil/Maria João D´Orey
Arquitetos: Julio Neves, Pablo Slemenson e Arthur Mattos Casas
Conclusão da obra: maio de 2008
Área construída: 99,5 mil m2
Projeto estrutural: JHSF
Área Bruta Locável (ABL) total: 36.300 m2
Lojas: 180
Pisos de lojas: Três
Um piso com cinemas e spa e jardins
Um piso com Academia Reebok
Tráfego de consumidores anual: 10,8 milhões (30 mil/dia)
Tráfego de veículos anual: 1,5 milhão
Empregos diretos: 1.600
Vagas de Estacionamento: 1.500