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Notícia
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| É melhor meia casa boa do que uma ruim |
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Arquiteto chileno, responsável por projeto no Paraisópolis, apresenta teoria de sucesso no chile |
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Reportagem: Da Redação
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Com obras na Alemanha, na China e nos EUA, o arquiteto Alejandro Aravena foi considerado um dos grandes criadores da arquitetura contemporânea. Aos 44 anos o arquiteto fará um projeto Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo. As obras dos 120 apartamentos devem começar no próximo mês.
Acompanhe os principais trechos da entrevista cedida ao jornal Folha de São Paulo.
Arquiteto de vanguarda e habitação social
Eu estudava na Universidade Harvard, havia sido convidado para dar aulas e estava numa mesa com o ministro chileno de Habitações, um engenheiro e um advogado. Todos começaram a falar de habitação social e eu, o único arquiteto da mesa, não tinha nada para dizer. Fiquei envergonhado por não poder dizer nada sobre habitação social numa discussão importante.
Harvard te põe em contato com o poder, um tipo de oportunidade que não se pode perder. Havia três ou quatro ganhadores do prêmio Pritzker. Eu não podia falar do estado da arte da arquitetura, porque as pessoas que estavam ali produzem o que eu consumo lendo livros ou revistas. O único assunto que eu poderia ter alguma vantagem em relação a eles estava relacionado com o contexto de escassez. Os prédios que eu projetara tinham a ver com isso. Comparando com outros prédios, nós tirávamos leite das pedras.
Trabalho para a elite
Fazer um edifício para uma universidade privada é trabalhar para a elite. Mas naquele mercado em que 60% das obras recebem subsídio não havia arquitetos de qualidade porque os valores pagos eram muito baixos. Um dos problemas mais difíceis do Elemental foi como pagar arquitetos de qualidade.
Áreas desvalorizadas
As famílias pobres se mudam para as cidades por uma razão muito clara: as cidades concentram oportunidades. Quando você está bem localizado, está inserido na rede de oportunidades: oportunidade de trabalho, de educação, de saúde, de transporte.
As pessoas que mais necessitam da rede de oportunidades estão excluídas dessa rede. Demoram duas horas para chegar até aonde estão concentradas as oportunidades. Temos que inserir as famílias no local que reúnem as oportunidades. Esse solo é mais caro. Para pagá-lo, a única maneira é ter uma densidade suficientemente alta para ratear o preço. O filho de uma família que mora num local assim vai poder frequentar escolas melhores do que as da periferia, hospitais melhores. E o patrimônio familiar valoriza.
Isso nos fez entender que a casa deve ser mais investimento do que gasto social. Se não houver um projeto, isso não ocorre. A pergunta que precisa ser feita não é quantos metros quadrados terá o imóvel, mas onde ele fica. O que faz o mercado?
Sem Pintura
Sugerimos que a casa fosse entregue sem pintura. Houve 100% de aprovação. A pintura é acessório. Porém, pedimos coisas mais extremas. Pedimos às famílias que os dormitórios não tivessem acabamento em troca de um banheiro de classe média. Também houve 100% de aprovação. Tivemos que ir ao Ministério da Habitação e pedir que não cumpríssemos a lei que obrigava a entrega a casa pronta. As famílias concordavam com a troca. Quando um banco olha um banheiro assim, diz que é de uma propriedade de US$ 20 mil, não de US$ 7.500.
Normalmente, nos movimentos sociais as pessoas querem mais coisas, não menos coisas. O ponto era ter não mais coisas, mas melhores coisas. Eles perceberam que estávamos dando coisas que custam meses de salário. Fazer metade de uma casa boa, em vez de uma casa pequena, foi de longe a mais importante reconceitualização. É o tipo de pergunta que só fazem os ignorantes. É uma pergunta boba. Os especialistas olham e riem de você.
DNA de classe média
É preciso levar o DNA da classe média para a favela para que a habitação se transforme em investimento e deixe de ser gasto social. O DNA de classe média é uma das cinco condições dos projetos do Elemental: 1) localização; 2) projeto do conjunto urbano; 3) 50% de frente para o lote urbano; 4) estrutura para os 80 metros finais, não para os 40 metros iniciais; 5) DNA de classe média nas partes mais complexas da casa --banheiro, cozinha e escada.
Obras para o Estado
No Chile, o Estado dá um subsídio para as famílias e elas vão ao mercado buscar uma solução de moradia.
O financiamento é estatal, mas a operação imobiliária é privada. As construtoras vivem de lucro. Mas há no México um projeto que é quase puro mercado. Lá, a habitação mais barata custa US$ 35 mil e são vendidas por empresas que têm ações na Bolsa. O projeto do Elemental custa US$ 20 mil, 50% mais barato que a mais barata das moradias. Construímos em bairros em que as casas ao redor valem US$ 50 mil. É um local estratégico.
As pessoas mais pobres são as que mais necessitam viver em lugares assim. Elas são as mais pobres porque não têm renda regular. Os programas baseados em dívidas hipotecárias não atingem os mais pobres. Isso explica o grau de informalidade da América Latina: 50% no México, 40% no Brasil, 60% na Venezuela e só 5%, 10% no Chile.
O Elemental pode fazer moradia por US$ 10 mil. Por isso é tão importante encontrar mecanismos que permita focalizar os mais pobres, os que não tem salário regular.
Arquitetura contemporânea brasileira
O que me chama muitíssimo a atenção que, dado o tamanho e a tradição arquitetônica do Brasil, o país não tenha suficiente massa crítica de arquitetura de qualidade sendo construída. O mercado imobiliário tem paixão pelo neoclássico pelo neoclássico e pelo pós-modernismo. Não posso acreditar que no Brasil tenha havido um pós-modernismo tão forte e tão ruim.
No Chile, uma das coisas boas que a ditadura fez foi nos deixar distante do resto do mundo e do pós-modernismo. Éramos também muito pobres para fazer as coisas pós-modernistas. Ficamos de certa forma protegidos por um certo isolamento intelectual e por uma certa pobreza.
Isolamento arquitetônico brasileiro
É um cruzamento de isolamento com autocomplacência. O modernismo frutificou no Brasil porque o modernismo europeu sonhava com climas como o brasileiro.
Não consigo entender como em milhões e milhões de metros de arquitetura imobiliária, e com o clima que o Brasil tem, tudo é fechado.
Seria mais econômico, mais eficiente e mais fácil de fazer, se a relação entre exterior e interior fosse mais fluída.
A arquitetura do Brasil parece o pós-modernismo italiano dos anos 1980. Parece que os arquitetos sonham com o clima mais frio da Europa.
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